Mudanças do clima no Brasil: maior variabilidade climática e mais impactos sobre a população mais pobre

Ícone de relógio set 13, 2013

O Brasil pode sofrer um aumento médio de temperatura entre 3% e 6% até o ano de 2100, afetando seriamente a distribuição e a intensidade das precipitações em todas as regiões do país e impactando negativamente a infraestrutura urbana, especialmente na região costeira – e os mais afetados por estas alterações serão as populações menos assistidas e mais pobres.

Estas são algumas das conclusões apresentadas por pesquisadores e especialistas do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) no último dia 9, durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (1ª CONCLIMA), em São Paulo. Estas informações fazem parte do Primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN-1) do grupo, atualmente em fase de finalização. Durante o evento, os coordenadores de cada um dos três grupos de trabalho (GTs) – bases científicas das mudanças climáticas; impactos, vulnerabilidades e adaptação; e mitigação – apresentaram as conclusões de seus trabalhos e apontaram possíveis lacunas científicas e necessidades que precisarão ser atendidas no futuro no âmbito da pesquisa científica em mudança do clima.

O sumário executivo do primeiro volume do RAN-1 já está disponível no site do PBMC.

RAN-1

O relatório reuniu e sistematizou o conhecimento técnico-científico sobre mudanças climáticas no Brasil e também no exterior, explicou José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). “O relatório está sendo preparados nos mesmos moldes dos relatórios publicados pelo IPCC [Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, sigla em inglês], que não realiza pesquisa, mas avalia os estudos já publicados”. Ele se divide em três volumes, cada um coordenado por um dos GTs do PBMC, e apresenta projeções regionalizadas das alterações climáticas previstas nos seis biomas brasileiros até o ano de 2100, os impactos esperados e as possíveis formas de mitigação.

A proposta do relatório é dar visibilidade ao conhecimento científico produzido sobre mudanças do clima, apoiando o processo político de decisão do governo e da sociedade em matéria de políticas para clima no Brasil. “Nós, cientistas, temos o desafio de conseguir traduzir a seriedade e a gravidade do momento e as oportunidades que as mudanças climáticas globais encerram para a sociedade”, argumenta Paulo Nobre, coordenador da Rede Clima, uma das organizações responsáveis pela 1ª CONCLIMA. “Sabemos que a inação representa a ação menos inteligente que a sociedade pode tomar”.

Principais conclusões

Em linhas gerais, o relatório aponta uma tendência de aumento da temperatura em todo o país, entre 3ºC e 6ºC até 2100 em comparação com o ano de 2000. Por sua vez, esse aumento afetará as precipitações em todas as regiões brasileiras, com uma maior incidência e intensidade de precipitações no Sul e Sudeste e maior seca no Centro-Oeste, Norte e Nordeste. A tendência de seca afetará a vazão dos rios do leste da Amazônia e do Nordeste, diminuindo-a em 20% no rio Amazonas e em 30% no rio Tocantins. Por sua vez, o aumento das chuvas no Sul e Sudeste alimentará o aumento da vazão na bacia do Paraná-Prata entre 10% e 40%.

O relatório aponta também um decorrente declínio da biodiversidade nos ecossistemas aquáticos continentais e terrestres brasileiros, e um maior risco nas zonas costeiras devido ao aumento do nível do mar, a erosão da costa, inundações, deslizamento de falésias, entre outros. No que tange à segurança alimentar, o grande desafio está no controle e combate a pragas e doenças que podem afetar as lavouras brasileiras. As mudanças do clima também podem afetar negativamente a dinâmica econômica e social em áreas rurais (diminuição da oferta de terras agriculturáveis, impacto na produção agrícola e migração para as cidades) e urbanas (vulnerabilidade da infraestrutura urbana).

Energia

De acordo com os dados apresentados pelo PBMC, um dos setores econômicos mais afetados pelas alterações do clima no Brasil será o energético, especialmente por causa da variação nos padrões de precipitação. “Essas variações de impacto mostram que qualquer tipo de estratégia planejada para geração de energia no leste da Amazônia está ameaçada, porque há uma série de fragilidades”, aponta Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e coordenador do GT 2 (Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação) do PBMC. “Temos opções para a variar a nossa matriz, mas considerando o apoio dado pelo governo ao setor do etanol, não cumpriremos as metas de Copenhague, o que reduz nossas opções em energia”. Para ele, a redução da vulnerabilidade do setor energético brasileiro passa necessariamente pela diversificação da matriz energética nacional.

No que diz respeito ao transporte, o relatório aponta a necessidade de se pensar numa mudança profunda nos modais sobre os quais o sistema de transporte de passageiros e de cargas se baseia no Brasil. Além de investir na redução das emissões do setor, com maior incentivo para o consumo de combustíveis renováveis, algumas barreiras precisarão ser enfrentadas para modificar os padrões atuais que predominam no transporte no Brasil, como custo de adequação da infraestrutura e barreiras sociais na substituição do modal rodoviário. Para Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília e uma das coordenadoras do GT 3 (Mitigação) do PBMC, ações de mitigação em transporte terão efeito muito além da redução das emissões do setor. “Olhar para a questão do transporte de passageiros também nos leva a contemplar questões sociais mais profundas, sobre a própria lógica do sistema de transporte, algo que esteve bem presente nos protestos de junho passado”.

Políticas regionalizadas e articuladas

Em suma, as mudanças climáticas terão um impacto relevante sobre a economia e a sociedade brasileira nas próximas décadas, o que exige ações efetivas de mitigação e de adaptação. No entanto, como o próprio relatório aponta, estas medidas precisam levar em consideração a variabilidade das mudanças dentro do território brasileiro, o que exigirá políticas regionalizadas e articuladas entre si, com o envolvimento de toda a sociedade. Além disso, como reflexo da mudança no perfil das emissões brasileiras a partir de 2005, o país precisará estabelecer ações de mitigação que vão além do controle do desmatamento – que já não é mais a principal atividade emissora de gases do efeito estufa no Brasil, estando hoje atrás do setor de energia e da agricultura.

No entanto, será fundamental que as políticas públicas também olhem para a questão social associada às mudanças climáticas. “Ninguém será mais afetado pelas mudanças climáticas do que as populações menos assistidas”, aponta Eduardo Assad. “Teremos que tomar decisões rápidas para evitar que tragédias aconteçam”.

[OC, Bruno Toledo |Fotos: Bruno Toledo]

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