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Com o apoio do Projeto Valores da Amazônia, Cooperativas vão ter produtos da sociobiodiversidade com certificação orgânica e selo Forest Garden Products

Transformar a vida das pessoas que vivem na floresta, levando alternativas de trabalho e renda, com foco na manutenção da floresta é o desafio do projeto Valores da Amazônia, realizado pela SOS Amazônia, com apoio financeiro do Fundo Amazônia.

Uma das metas do projeto é a certificação orgânica de produtos florestais não madeireiros. Para isso, há investimentos em infraestruturas, formações, pesquisas e intercâmbios.

“Desde 2015, o Valores da Amazônia vem se empenhando por meio de visitas técnicas, intercâmbios e oficinas de boas práticas no processo produtivo e de certificação, a fortalecer o caminho para o selo orgânico desses produtos, e agora estamos tendo essa oportunidade no Acre e Amazonas, de termos vários produtos com certificação orgânica. Isso representa uma enorme conquista para a biodiversidade amazônica, para os empreendimentos apoiados e para as pessoas”, conta Àlisson Maranho, secretário técnico da SOS Amazônia.

Inspeção na Cooperar – IMOcert

O trabalho mais recente foi a inspeção realizada nas cooperativas Coopercintra, Coopfrutos, Cooperar e Copronat, pela IMOcert Latinoamérica, pioneira na atividade de certificação ecológica e sustentável na América Latina.

A inspeção, para certificar produtos das cadeias de valor de óleos vegetais e do cacau silvestre, aconteceu no período de 8 a 27 de maio. Representantes da IMOcert fizeram visitas técnicas especializadas nos quatro empreendimentos, além de ampliar o conhecimento dos cooperados e da equipe de extensionistas com mais uma oficina de Certificação Orgânica, Extrativista e Mercado Justo.

Na oficina de cinco dias, discutiu-se as normas europeias, norte-americana e normas privadas, com ênfase em ‘Forest Garden Products’ (FGP); além de debater o que se faz necessário para atender exigências e conseguir o certificado de produto orgânico.

“A ideia é que essas pessoas sejam multiplicadoras do processo e também inspetoras dessas organizações que futuramente podem requerer também sua própria certificação. O curso contou com atividades teóricas e práticas, dentre elas: elaborações de ficha de inspeção, regulamentos internos e elaborações de contratos”, explica Thayna Souza, executiva ambientalista/SOS Amazônia.

Após a oficina, os profissionais da IMOcert iniciaram processo de Certificação das beneficiárias.

Áreas de cacau silvestre | IMOcert

A Cooperativa dos Produtores de Agricultura Familiar e Economia Solidária de Nova Cintra (Coopercintra) está se adequando para certificar dois produtos: manteiga de murmuru e amêndoa de cacau; A Cooperativa de Produtos Naturais da Amazônia (Copronat), quatro produtos: semente e óleo de cumaru, resina e óleo essencial de breu; Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus (Cooperar), nove produtos: andiroba, copaíba, tucumã, murmuru, buriti, uricuri,  patauá, castanha e cacau; e a Cooperativa de Produtores de Polpa de Frutos Nativos de Mâncio Lima (Coopfrutos), dois produtos: óleo de buriti e açaí.

De acordo com Àlisson, os produtos foram aprovados, no entanto, as cooperativas têm prazos de 30 a 90 dias para fazerem os ajustes necessários para a emissão do certificado orgânico. Dentre os ajustes está a elaboração de fichas para controle de matéria-prima e de inspeção interna, delimitação das áreas para os produtos orgânicos; exposição de banner com os 12 princípios da Norma Privada FGP.

Inspeção na Coopfrutos – área de coleta de buriti e açaí | IMOcert

Elizana Araújo, superintendente da Coopfrutos, vê a iniciativa como uma grande oportunidade para alcançar novos mercados. “Com a certificação as cooperativas terão uma grande oportunidade de ter acesso a novos mercados, principalmente o mercado Europeu, e com isso agregar maior valor aos produtos, garantindo melhor qualidade de vida para todos envolvidos no processo produtivo”, disse.

Para Ivan Del Carpio, inspetor sênior e consultor externo da Imocert, há grande potencial para os produtos florestais não madeireiros e ele vê na certificação uma forma de despertar o interesse de mais pessoas a trabalhar com esses produtos.

“O mais importante é que as cooperativas podem acessar mercados internacionais para comercializar produtos com melhores preços, permitindo o fortalecimento econômico e social da cooperativa. Para os extrativistas, a maior importância está em agregar valor ao seu produto, e garantir que sua saúde e a das pessoas não seja comprometida. Mas, ainda utilizam muito pouco do potencial da floresta, com a certificação e o aumento do valor, é possível que desperte o interesse de todos para o trabalho com o extrativismo”, avalia.

POR QUE CERTIFICAR?

A certificação tem sido cada vez mais difundida e requerida por compradores como exigência de qualidade de produtos, e também porque se preocupam com a sustentabilidade e a melhoria de renda das famílias que vivem do extrativismo. A certificação tem um papel na economia e no âmbito social muito grande, além de valorizar o trabalho do extrativista, garante a ele novas fontes de renda, e essa renda com a certificação, tem grande possibilidade de ser ampliada. Aliado a isso, os compradores finais estão cada vez mais preocupados com a saúde, o que impulsiona também o crescimento da demanda por produtos cultivados com métodos orgânicos.

A diferenciação de produtos orgânicos ocorre com base em suas qualidades físicas, decorrentes, principalmente, da ausência de agrotóxicos e adubos químicos.

A certificação é “uma garantia” de que os produtos tenham de fato sido produzidos dentro dos padrões de orgânicos, nesse caso, os produtos oriundos do extrativismo são de fato oriundos de boas práticas de manejo de coleta e beneficiamento, respeitando critérios de sustentabilidade ambiental e social.

Há dezenas de benefícios: Sintonia com os princípios do extrativismo, como por exemplo, não coletar todos os frutos, assegurando o alimento aos animais e permitindo a regeneração florestal; não usar veneno; não desmatar, nem queimar a floresta.

Acesse a página do Projeto Valores da Amazônia | Navegue aqui.

Mais de 40 comunidades são beneficiadas com ATER Agroecologia no Juruá

A SOS Amazônia, em parceria com a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), realiza, desde 2012,  no Alto Juruá, Acre, o Projeto ATER Agroecologia. O objetivo é promover a Agricultura Familiar Sustentável.

A iniciativa tem o desafio de trabalhar a produção agroecológica e orgânica nas Unidades de Produção Familiar (UPF) e destacar a necessidade de alternativas que visem a melhoria da produção rural, de olho no uso sustentável dos recursos naturais.

Mais de 40 comunidades são beneficiadas com o projeto, alcançando cerca de 800 famílias, nos municípios de Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo.

Com o esforço e a experiência da equipe técnica da SOS Amazônia, que navega os diversos rios e igarapés da  região, para levar novas alternativas de produção, sem desmatamento, sem uso do fogo e sem veneno, já se registram muitos resultados importantes.

Um exemplo é a propriedade do seu Raimundo Nonato Ferreira, mais conhecido como Leandro, que conta com orgulho que não desmata mais e nem usa veneno em sua área rural. Atualmente, seu Leandro usufrui do seu Sistema Agroflorestal (SAF).

“Já estou colhendo os frutos, tenho mamão papaia, abacate, tangerina, laranja, abacaxi, graviola, cupuaçu, cacau, acerola, banana e a roça. A gente faz a roça sem uso do fogo e eu não uso veneno. Aqueles agricultores que trabalham ainda com queima, além deles estarem agredindo o meio ambiente estão explorando a terra deles. Um agricultor que trabalha lá no Riozinho reclamou que plantava muito longe. Eu perguntei: por que você não traz o roçado para a beira de casa? Ele respondeu:  não, porque a terra de lá não dá. Eu disse: é porque você trabalha de maneira irresponsável, porque para trabalhar de maneira sustentável é preciso você ter consciência do que está fazendo, se eu broco uma terra dessa aí e meto fogo vou tirar todos os nutrientes dela”, explica seu Leandro.

Além da prática de Roçados Sustentáveis, o ATER Agroecologia promove atividades abordando várias temáticas: reaproveitamento de alimentos alternativos, conservação dos recursos naturais, controle sanitário ao redor das casas, igarapés e rios, educação ambiental acerca dos resíduos sólidos, violência doméstica.

Miguel Scarcello, secretário geral da SOS Amazônia, explica que o projeto ATER Agroecologia termina no final de maio. No entanto, há grande possibilidade de estender o prazo por mais seis meses, já que existem atividades que não foram realizadas por conta de atrasos de empenhos financeiros.

“Sem dúvida, é fundamental que essa iniciativa continue apoiando as famílias do Juruá, gerando trabalho e renda, com o uso sustentável dos recursos naturais da região”, destaca Miguel.

Saiba mais sobre o Projeto ATER Agroecologia

SOS Amazônia e cooperativas participam da BIOFACH 2018 – Feira Internacional de Alimentos Orgânicos

A SOS Amazônia e cooperativas apoiadas pelo Projeto Valores da Amazônia estão participando da Feira Internacional de Alimentos Orgânicos, realizada em Nuremberg – Alemanha, entre os dias 14 e 17 de fevereiro.

Um dos serviços do Valores, projeto realizado com apoio financeiro do Fundo Amazônia, é possibilitar a participação desses empreendimentos amazônicos em feiras internacionais – Uma boa oportunidade de posicionamento dos produtos de base florestal no mercado internacional.

Produtos expostos pelas cooperativas apoiadas pelo Valores da Amazônia e produtos da Guayapi (parceria feita para exposição dos produtos)

As cooperativas estão expondo produtos de duas cadeias de valor apoiadas pelo projeto: Óleos vegetais (tucumã, andiroba, buriti, patauá, açaí) para uso cosmético e alimentício; copaíba, breu, pau rosa e manteiga de murmuru para uso cosmético; Amêndoas de Cacau Silvestre (alimentício) e manteiga de cacau silvestre (uso cosmético).

“Trata-se de uma grande oportunidade para a Coopfrutos ter acesso ao mercado europeu, é o início de uma nova etapa, ainda estamos nos adequando, mas podemos agregar valor com a certificação dos nossos produtos e todos os envolvidos no processo produtivo podem sair ganhando”, destaca a representante da Coopfrutos, Elizana Araújo.

A Feira tem como uma de suas propostas, promover o uso responsável dos recursos naturais. 2.950 expositores e mais de 50.000 visitantes do setor orgânico nacional e internacional são esperados no BIOFACH 2018.

“Sem dúvida, é a maior feira de orgânico do mundo, com a participação de pessoas e empresas que querem conhecer produtos novos e diferentes, com responsabilidade social e ambiental. É uma oportunidade imensa para divulgar o trabalho que essas cooperativas fazem para gerar renda e manter a floresta em pé, que podem, futuramente, terem seus óleos vegetais e amêndoas de cacau inseridos no mercado europeu, cumprindo todas as exigências que esse mercado requer. Percebemos que há muito interesse das pessoas quando vêm visitar nosso estande, elas querem conhecer mais sobre os óleos, saber como são produzidos, suas finalidades. Então, isso que o projeto Valores está possibilitando a esses empreendimentos, com certeza, pode garantir, no futuro, acordos importantes para a comercialização desses produtos de base florestal”, observa Alisson Maranho, coordenador geral do projeto Valores da Amazônia.

[Foto em destaque mostra representantes da SOS Amazônia, Cooperativas e da Guayapi]

Saiba mais sobre o Valores da Amazônia.

 

Organizações lançam campanha contra o uso de Agrotóxicos

A SOS Amazônia realiza por meio de seus projetos, como o ATER Agroecologia, ações que visam fortalecer a agricultura familiar com foco no uso sustentável dos recursos naturais. Defendemos e promovemos a produção rural sem uso de veneno. E, junto a organizações e pessoas que querem alimentos saudáveis na mesa dos brasileiros, convidamos a sociedade a se mobilizar para barrar o Projeto de Lei 6.922/2002 que facilita uso de agrotóxicos no país.

Para apoiar o movimento contra os agrotóxicos, foi lançada na quinta-feira, 16, a plataforma #ChegaDeAgrotóxicos, uma Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. O objetivo da campanha é sensibilizar a população brasileira para os riscos que os agrotóxicos representam, e a partir daí tomar medidas para frear seu uso no Brasil. Além de promover a agroecologia como modelo de produção de alimentos que coloca a vida em primeiro lugar.

Na página é possível ainda acompanhar informações sobre o porquê de apoiar esta ação, como riscos à saúde dos consumidores, contaminação do solo e cursos d’água, reservatórios e aquíferos.

Vem com a gente, assine a Petição #ChegaDeAgrotóxicos

Técnicos da SOS Amazônia participam de curso para promoção da Agricultura Familiar Sustentável

A SOS Amazônia, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), realiza entre os dias 7 e 11 de outubro, no auditório da Embrapa/Cruzeiro do Sul, o curso ‘Formação dos Agentes de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) para a promoção da Agricultura Familiar Sustentável’, destinado a 27 técnicos da SOS Amazônia.

Ministrado pelo coordenador geral de Formação, Inovação e Sustentabilidade do MDA, Lucas Henriques, o curso tem por objetivo possibilitar nivelamento conceitual e prático sobre temas importantes da extensão rural e colaborar na qualificação dos Agentes de Ater que irão atuar na Chamada Pública de Agroecologia.

Com carga horária de 40 horas/aula, a formação dos agentes será desenvolvida em eixos temáticos, com processos pedagógicos favoráveis à construção coletiva do conhecimento e ao aprofundamento conceitual e metodológico sobre Histórico da Agricultura Familiar e sua contextualização regional, Agroecologia e Sustentabilidade, Pedagogia e Metodologias de ATER, Políticas Públicas da Agricultura Familiar, Inovações, Atividades da Chamada Pública, Noções do Sistema Informatizado de ATER, Gestão de Contrato e Avaliação.

Além disso, esses eixos vão abordar as relações de gênero, geração e etnia visando à promoção da igualdade, a segurança alimentar e nutricional, e a inclusão social e produtiva dos agricultores familiares, no processo de desenvolvimento sustentável.

Participam das atividades o secretário geral da SOS Amazônia, Miguel Scarcello, coordenador de Projetos da SOS Amazônia, Adair Duarte, e o engenheiro agrônomo do MDA, Gustavo Ferreira.

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Projeto de ATER Agroecologia – Oferece assistência técnica e extensão rural para comunidades do Juruá, com foco na ‘Transição Agroecológica, Organização Social e Gestão da Propriedade’, por meio de atividades individuais e coletivas.

Com duração de 36 meses, a iniciativa tem a finalidade de trabalhar a produção agroecológica e orgânica nas Unidades de Produção Familiar (UPF) e destacar a necessidade de alternativas que visem a melhoria da produção rural, de olho no uso sustentável dos recursos naturais, ambientais, sociais e econômico.

Mais de 40 comunidades são beneficiadas com o projeto de ATER Agroecologia do MDA/SOS Amazônia, alcançando cerca de 800 famílias, nos municípios de Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo. Dentre as comunidades contempladas estão as do rio Juruá Mirim (Prainha I, Bahia, Formigueiro e Vista Alegre); rio Juruá (Carlota, Mujú, Grajaú, Besouro, Praia da Amizade, Pucalpa II e Nova Cintra). [/box]

Agroecologia se apresenta como resposta a problemas estruturais

Por que interessa à sociedade apoiar a agroecologia? Essa foi a pergunta que norteou o terceiro Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), realizado em maio na cidade de Juazeiro, Bahia. A questão foi debatida com trabalhadores do campo, técnicos, professores, pesquisadores, extensionistas, estudantes e gestores públicos.

O encontro resultou numa Carta Política com reflexões e proposições para implementar uma nova maneira de produzir, distribuir, divulgar e consumir alimentos. O atual sistema alimentar, baseado no princípio do alimento como mercadoria, não considera o território, a cultura e as pessoas do lugar, reforçando desigualdades e injustiças, no campo e na cidade. Com isso, as escolhas alimentares ficam restritas à produção agrícola comercial e industrializada.

A perspectiva agroecológica incorpora não somente a dimensão tecnológica, mas questões sociais, culturais e econômicas. Para Miguel Altieri (1987), “a agroecologia fornece os princípios básicos ao estudo e tratamento dos ecossistemas, tanto produtivos quanto preservadores dos recursos naturais, e que sejam culturalmente sensíveis, socialmente justos e economicamente viáveis”.

Nos últimos 30 anos, esse modelo vem se apresentando como opção estratégica por oferecer respostas concretas para a superação da miséria, a saúde coletiva, a conservação dos bens naturais e do patrimônio cultural. Assim como os anseios da sociedade por uma alimentação saudável. É importante destacar que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo.

A pergunta que norteou o ENA encontra resposta na trajetória do casal de agricultores agroecológicos José Antônio Callado, de 45 anos, e Beth Diniz Faria, de 42 anos. Ele nasceu em Duque de Caxias; ela em Magé, municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Conheceram-se quando a mãe de Callado comprou um sítio em frente à casa da moça.

Esse ano completarão 25 anos de casados, com uma longa jornada dedicada à agricultura, passando da convencional, com o uso de agrotóxicos, para a agroecologia. Callado ressalta que os benefícios obtidos com o uso de adubos químicos, tanto em produtividade como em lucro, são ultrapassados pelos prejuízos de uma plantação devastada por pragas. Foi o que aconteceu com ele numa área plantada com aipim, que foi totalmente perdida para uma praga chamada jacaré.

No entanto, Callado afirma que nasceu com o dom de agricultor, e sua experiência demonstra a valorização do saber tradicional ao fazer a transição para a agroecologia. “Sempre gostei de conviver com os mais velhos, aprender a sabedoria dos antigos. Minhas amizades eram com pessoas de mais idade. Sempre foi meu interesse, um instinto. Hoje em dia entendo que sou um agroecologista de nascença. Fui descobrindo aos poucos”, conta.

Foi exatamente essa habilidade para ouvir que capacitou Callado a reter e valorizar o conhecimento popular sobre o cuidado com a terra, e mudar o rumo de sua colheita. Essa escuta atenta lhe permitiu criar intimidade com a natureza. “O agricultor tem que aprender a escutar a mãe natureza. Ela ensina a toda hora, a todo minuto, a todo segundo. O único problema é entender a língua dela, mais nada”, ensina Callado. Ele deve à avó de Beth, Dona Maria Irene, os ensinamentos sobre como cuidar da lavoura.

Essa descoberta contou com auxílio de algumas pessoas e instituições, como a Emater, empresa responsável pela assistência técnica e extensão rural no Estado do Rio de Janeiro. Outro momento importante para encontrar sua origem e conseguir se manter no campo foram os cursos de capacitação promovidos pela ONG italiana CISV, há cerca de 8 anos.

Transição para a agroecologia

Hoje, Callado é proprietário do Sítio Esplendor. O nome, aliás, é sugestivo para um homem que já foi veneneiro (utilizava somente adubos químicos), como gosta de dizer; sacoleiro; e vendedor de areia para lojas de material de construção. Pensou em desistir do sítio para procurar outro emprego, mas acabou transformando a terra seca em terreno produtivo, praticando a agroecologia. “Passei de monocultor a agricultor agroecológico. Antes, só plantava milho e aipim.” Agora, suas terras férteis dão batata doce, abobrinha, banana (vinagre/São Thomé Roxa e prata), tomate, milho, aipim, limão, palmito, feijão de corda, vagem, limão siciliano, pepino doce e outros cultivos.

A mudança de trajetória não se resume à troca por insumos agrícolas menos agressivos, como ocorre, em parte, com a produção orgânica. É uma mudança de mentalidade e de práticas. Em entrevista, Callado mostrou como funciona esse processo. A conversa começou com um passeio pedagógico à plantação, onde mostrou cuidadosamente como conduz sua lavoura, onde as interações ecológicas e sinergias dos componentes biológicos criam a fertilidade do solo, a produtividade e a proteção das culturas. É um exercício de paciência, perseverança. O agricultor é um mediador do equilíbrio do ecossistema, onde coexistem plantas, solo, nutrientes, luz solar, umidade etc.

Ele cita o exemplo da joaninha. Quando o agricultor convencional aplica um inseticida na plantação, os mais frágeis são os que morrem primeiro. As pragas são mais resistentes. “Até as caldas naturais podem matar as joaninhas. Quando preciso aplicar uma calda faço uma análise bem feita. Já perdi uma roça para a praga, mas não matei as joaninhas. Para uns (perder a roça), é prejuízo, mas eu olho o futuro. Não estava perdendo, estava ganhando porque hoje as joaninhas são abundantes em meu sítio”, ensina. As joaninhas são predadoras vorazes de pulgões, alimentando-se tanto da forma adulta quanto da larva. Uma única joaninha pode comer mais de 50 pulgões por dia.

Por esse motivo, esse inseto é frequentemente utilizado para realizar o controle biológico desta praga em áreas de cultivo agrícola. “O agricultor que usa veneno não tem paciência de esperar, principalmente os que dependem cem por cento do que produzem”, explica.

A visita seguiu para a parte mais alta do terreno, que antes tinha a paisagem marcada apenas pela monocultura citrus (laranja, tangerina e limão). Callado mostra com orgulho as técnicas e estratégias empregadas para restabelecer o equilíbrio natural em seu sítio. No cenário de monocultura vai sendo plantado cajá, seriguela, carambola e manga, como culturas perenes; e diferentes tipos de abóbora, culturas anuais.

O objetivo é mudar a paisagem, aumentar a diversidade e a qualidade do solo. Assim, é possível fazer a transição agroecológica de forma harmoniosa e com geração de renda. Em 2016, o agricultor faz planos de abrir uma escola de agroecologia para compartilhar saberes com consumidores de todas as idades, do campo e da cidade. “Vivo mil vezes melhor do que quando era um monocultor”, declara.

Feiras e consumidores

De acordo com Renata Souto, assessora técnica da AS-PTA, o momento é estratégico para a agroecologia. Ela destaca a criação das feiras agroecológicas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. “A agroecologia tem relação com experimentação, observação e convívio”, explica Renata. Callado é um dos agricultores que comercializam direto numa feira, a do Bairro Peixoto, aos sábados, em Copacabana, integrante do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas. A esposa Beth faz licores de acerola, banana e morango. Callado, que gosta de ouvir, está atento aos anseios de seus clientes.

Ele considera que 90% dos fregueses que vão à sua barraca são consumidores agroecológicos. Entusiasmado, cita exemplos de saberes que tem compartilhado sobre a lavoura, e percebe o interesse dos consumidores da cidade em conhecer mais sobre os alimentos. Como na plantação, há aqui também sinergia propícia para uma mudança de mentalidade, como propõe esse modelo agrícola. Renata justifica que as feiras agroecológicas são uma forma de democratizar o acesso ao conhecimento e ao alimento saudável, com preço justo. “Olhar para o valor final é uma questão importante nas feiras agroecológicas”, diz a técnica. Esses pontos de comercialização, assim como em outros locais estratégicos, dão autonomia ao agricultor para comercializar e facilitam o acesso do consumidor ao alimento saudável.

Callado e Renata estão afinados com as intenções da Carta Política do Encontro Nacional de Agroecologia, ao evidenciar que “o fortalecimento de alianças entre essas forças sociais vem criando condições para que as práticas e atores responsáveis pela produção, distribuição e consumo de alimentos saudáveis tornem-se mais visíveis, rompendo progressivamente com o monopólio da comunicação, imposto pela aliança entre o agronegócio e a grande mídia”. Na agroecologia, os processos de produção e socialização do conhecimento são reconhecidos e valorizados.

Questão agrária, central no século XXI

De acordo com o documento do ENA, a questão agrária se mantém com centralidade no século XXI. O modelo agrário/agrícola, que se apresenta como o que há de mais moderno, sobretudo por sua capacidade produtiva, atualiza o que há de mais antigo e colonial em termos de padrão de poder ao estabelecer uma forte aliança oligárquica entre as grandes corporações financeiras internacionais; as grandes indústrias-laboratórios de adubo, fertilizantes, herbicidas e sementes; as grandes cadeias de comercialização ligadas aos supermercados; os grandes latifundiários exportadores de grãos (Porto-Gonçalves 2006, p.243).

A transição para a agroecologia demanda investimento e financiamento. Nesse sentido, destaca-se a conquista da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO) e a Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO), com a participação de governo e sociedade civil. No entanto, a promoção e a transição agroecológica dependem de políticas públicas voltadas ao fomento e ao crédito. Callado sugere que, para esse planejamento, devem ser ouvidos, em primeiro lugar, os agricultores familiares.

“Não há projeto que faça a Agricultura Familiar parar de comprar veneno, enriquecendo a Monsanto, e mudar para a agroecologia, sem escutar quem lavra a terra”, declara. Depois da visita ao sítio, Beth nos ofereceu gentilmente aipim frito, daquela modalidade “manteiga”, que derrete na boca, acompanhado de um cafezinho e mingau de milho, com sabor natural de milho – um aconchego. O passeio e a refeição somaram-se à conversa na mesma sintonia, produzindo também entendimento a respeito da relação entre o rural e o urbano.

 

Por Juliana Dias, editora do site Malagueta/AS-PTA

Combate ao Racismo Ambiental