Sobre ignorar quem foi Chico Mendes

Com relação ao comentário do ministro do Meio Ambiente, senhor Ricardo Sales, no programa roda viva da TV Cultura no último dia 11/02, quando ele diz que não há diferença conhecer ou não Chico Mendes, penso que podemos ter algumas linhas de entendimento.

Uma delas trata-se de uma opção ideológica, não concordar com a história de pessoas e seus atos, que são diferentes das suas ideologias. A outra visão é de quem ignora a história, sabe dos fatos e pouco se importa com o que acontece no país. Outra é por querer criar um ambiente de intolerância e ser repercutido pelos milhares de internautas que dão ‘likes’ positivos a tudo que vem do governo federal, nas mídias ‘fast food’ e sem DNA que dominaram a comunicação nos últimos cinco anos.

Optando por entender a atitude do senhor Ministro como uma opção ideológica, creio que ele agiu naturalmente. Como o atual governo federal se posiciona, conservador, essa ideologia defende a tese de que Chico Mendes não representa nada positivo, a exemplo da irmã  Dorothy Stang, pois fazia ativismo para impedir os investidores de crescerem economicamente.  Ou melhor, por essa visão, a defesa de direitos dos seringueiros pela terra que sempre trabalharam é algo que deve ser ignorado, pois foi contrária a política de integrar para não integrar,  promovida pelo governo federal nas décadas de 1970 e 1980, estabelecida pelo governo militar, da qual hoje o senhor ministro está  aliado aos contemporâneos daquela época.  Seguindo por esse entendimento, cabe também refletir sobre a origem dos apoios a opção ideológica adotada no país também naquela época. Os  americanos dos EUA apoiaram o governo  brasileiro na década de 60, 70 e 80 contra o comunismo, viabilizando a implantação das grandes infraestruturas no país, por outro lado foram também os americanos que apoiaram a manifestação do Chico Mendes na reunião do Banco Mundial em Nova York em 1985, quando ele denunciou a devastação dos povos indígenas, dos extrativistas e das florestas na Amazônia,  devido ao dinheiro que os acionistas estavam emprestando para se abrir e pavimentar a rodovia BR 364.

Entendo  que o ministro perdeu uma grande oportunidade de demonstrar o conhecimento eclético que o cargo exige e a humildade oportuna e necessária para reconhecer que o povo brasileiro tem muitas origens e cabe sensatez para podermos conduzir um país democrático. Enquanto não houver ditadura e a nossa constituição existir, cabe a ele, um  servidor público, no papel que ocupa, se manifestar com respeito e conhecimento, mesmo que ideologicamente ele tenha opinião contrária. No mínimo ele poderia ter expressado qual é a versão que ele conhece do Chico. Ou será que de fato ele não conhece?

Por fim, essa breve nota, tem como objetivo principal, lembrar Chico Mendes como acreano, pela importante contribuição à defesa dos direitos e interesses dos extrativistas do Acre e da Amazônia,  pela inesquecível contribuição na defesa da floresta Amazônica, e dentre tantas outras iniciativas que ele teve,  por ser um dos fundadores da SOS Amazônia. Portanto, ao Chico, todo nosso respeito e eterna admiração.

Miguel Scarcello

Secretário geral da SOS Amazônia

Rio Branco – Acre,  12 de fevereiro de 2019

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