Série: Participação das mulheres nas atividades produtivas

Ícone de relógio abr 15, 2016

#ResultadosResexAltoJuruá

A segunda série da reportagem de resultados do ATES Resex Alto Juruá destaca a participação, a força e a criatividade das mulheres.

A força e a criatividade das mulheres da Resex Alto Juruá

O projeto ATES Resex Alto Juruá, realizado pela SOS Amazônia, com apoio financeiro do Incra e institucional do ICMBio, incentivou por meio de oficinas, a formação de sete grupo de Mulheres para artesanato, corte e costura, hortaliças e produção de biscoitos de goma. Em todas as atividades coletivas e produtivas, há presença de, no mínimo, 50% de mulheres. Essa participação já resultou em muitas ideias boas e inclusivas.

Uma iniciativa que merece maior destaque é a associação de 12 mulheres para a fabricação de biscoitos de goma, na comunidade Novo Horizonte, distante 3 horas da zona urbana de Marechal Thaumaturgo, subindo os rios Juruá e Tejo, em barco de média potência.

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Biscoitos da Resex Alto Juruá sabor coco | Foto Eliz Tessinari

Esse grupo de mulheres foi orientado sobre boas práticas, de como produzir e manusear biscoitos de goma, e também sobre como inserir a produção no mercado local.

O incentivo a esse empreendedorismo, produção e comercialização de biscoitos de goma resultou na comercialização de 80 quilogramas de biscoitos em uma feira popular no município de Marechal Thaumaturgo, realizada no período de 18 a 20 de janeiro de 2016. Na ocasião, as integrantes visitaram o comércio local para oferecer o produto, e como uma experiência de venda, deixaram um balde de sete quilos no principal mercado da cidade.

Numa visita recente à comunidade, a equipe da SOS Amazônia percebeu mais ainda o quanto estão organizadas para que o empreendimento Biscoitos da Resex Alto Juruá continue avançando.

Atualmente, foram realizados acordos de vendas com supermercados locais para entrega de 40 quilos por semana, com contratos firmados até junho de 2016, gerando, aproximadamente, R$ 250,00 por mês para cada uma das beneficiárias.

“A SOS Amazônia buscou parceria com o Sebrae, por meio do projeto Mulheres Empreendedoras, e trouxe uma biscoiteira de Cruzeiro do Sul para ensinar todas as técnicas, como o traçado das massas e a secagem da goma. Elas têm muita determinação e são muito criativas, além do biscoito de goma tradicional, sabor coco, estão fazendo experimento com frutas nativas, como o açaí, construíram com a ajuda da equipe ATES, um espaço para a fabricação dos biscoitos e também conseguiram apoio da Prefeitura de Marechal para a construção de um forno e melhoria estrutural do espaço. São pessoas inspiradoras, mas que desconheciam seus potenciais, e agora percebo que muitas estão surpresas com o resultado, pois não acreditavam que iam chegar nesse estágio”, destaca a assistente social da SOS Amazônia, Eucilânia Cordeiro.

Eucilânia explica que a proposta é de acompanhar essas mulheres pelo período de um ano até que elas possam dar continuidade por meio de planejamento estratégico, exatamente para que elas entendam melhor o mercado e cheguem ao ponto de uma cooperativa.

Professora Cléia, integrante do empreendimento Biscoitos da Resex Alto Juruá | Foto: Eliz Tessinari

Professora Cléia, integrante do empreendimento Biscoitos da Resex Alto Juruá | Foto: Eliz Tessinari

A professora de ensino fundamental e uma das empreendedoras do ‘Biscoitos da Resex Alto Juruá’, Jaicicléia de Assis Ramos, falou que a iniciativa é uma forma de divulgar os produtos da Reserva e promover a melhoria da renda familiar.

“A princípio, achávamos que seria mais um treinamento e ficaria por isso mesmo, mas de repente, o mercado se mostrou muito grande. A fabricação de biscoitos é mais um incentivo ao aumento da renda da família e uma forma também de divulgar os produtos da nossa Reserva. Tudo isso é novo para gente, um mercado para os nossos produtos, atividades que fortalecem as mulheres da nossa comunidade e de outras da região. Só me resta agradecer pelo o que estão fazendo na Resex porque até então estávamos meio que abandonados. E estavam aproveitando esse abandono para desmatar muitas áreas verdes e para caçar com cachorro. Com essas oficinas, a SOS Amazônia está conseguindo conscientizar as pessoas para não fazer esse tipo de coisa e usar a floresta de maneira correta”, destaca.

Alimentação alternativa inspira novos hábitos e ideias

Para garantir a segurança alimentar e nutricional das famílias, o ATES Resex Juruá apostou na diversificação da produção. Com as iniciativas do projeto (oficinas e implementação de estufas de hortaliças) houve uma diversificação de 35% dos produtos utilizados na alimentação da família. Hortaliças e frutas, por exemplo, ganharam mais espaço na mesa do produtor.

Em parceria com a Pastoral da Saúde de Cruzeiro do Sul e a Pastoral da Criança de Marechal Thaumaturgo, estão sendo realizadas várias oficinas sobre Alimentação Alternativa, com o objetivo de implementar nas comunidades a produção de alimentos e também o seu reaproveitamento, o estímulo a adoção de hábitos alimentares e estilo de vida saudáveis, além de melhorar a renda das famílias.

Outro foco muito importante dessa atividade é a conscientização sobre o uso correto dos recursos agrícolas e extrativistas existentes em suas comunidades sem agredir o ambiente.

“Queremos construir, de maneira coletiva, um conceito de alimentação saudável com ações de combate ao desperdício de alimentos. É com atividades de educação como essas que buscamos aumentar a autoestima dos moradores da Resex Alto Juruá”, destacou Eucilânia.

Três jovens indígenas da Aldeia Kuntanawa, às margens do rio Tejo, já estão colocando em prática os ensinamentos.

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Maria de Jesus, Rosemeire Araújo e Isa Torres – Aldeia Kuntanawa, rio Tejo

“O curso foi muito bom para nossa comunidade porque não sabíamos trabalhar com esses alimentos alternativos, que com certeza enriquecem a nossa alimentação e ajuda diminuir a desnutrição de muitas crianças na região, pois muitas delas só comem farofa com carne. Nos nossos festivais não tínhamos muito o que oferecer, agora com esses novos alimentos podemos melhorar nosso cardápio e receber os turistas de uma forma melhor”, argumenta Rosemeire Araújo Kuntanawa.

“Agora aprendemos aproveitar o que antes jogávamos fora, aprendemos a fazer novos alimentos como o mangará da banana, o bolo de jerimum, a farofa da casca da banana, ou seja, melhoramos a nossa alimentação e a dos nossos filhos. O curso nos ajudou também a receber melhores as pessoas, pois recebemos muitos turistas na nossa comunidade e muitos deles não comem carne”, disse Maria de Jesus Kuntanawa.

“Aprendemos a fazer vários alimentos, como por exemplo, a salada do jerimum e também do mamão, possibilitando uma mudança na alimentação, pois a gente fazia somente carne, peixe e farofa. Agora podemos ter uma variação de alimentos na nossa mesa e principalmente oferecer melhores comidas para nossos filhos, com mais vitamina”, afirma Odaísa Kuntanawa.

Neste primeiro momento, foram realizadas oito oficinas de alimentação alternativa, em um total de 12, nos diferentes Polos da Resex, em 2016. As mulheres são maioria nessa atividade, chegando a 90% de participação. As próximas estão previstas para o mês de maio, na comunidade polo Foz do Breu e Caiporinha, localizadas às margens do rio Juruá.

Diminuindo a desnutrição infantil

Para diminuir o índice de crianças desnutridas e cuidar melhor da saúde dos moradores da Resex alto Juruá, foram realizadas, em parceria com a Pastoral da Saúde de Cruzeiro do Sul, 11 oficinas de Fabricação da Farinha da Multimistura e Remédios Caseiros.

A iniciativa tem por objetivo sensibilizar as pessoas para o uso de alimentos mais saudáveis e resgatar a medicina da floresta na região.

Nas oficinas, os participantes aprenderam a fazer um composto formado por farelos de arroz, trigo, farinha de banana, fubá de milho e sementes oleaginosas (gergelim, girassol, castanha do brasil), que quando adicionado a alimentação diária, em pequenas quantidades, pode ajudar na nutrição de crianças, adultos e idosos. Este composto nutricional, chamado de Multimistura, combate principalmente a desnutrição e a anemia. Ao todo, foram feitos 384 pacotes Multimistura (400gr).

Sobre os produtos da medicina popular, o que mais chamou a atenção foram os variados tipos de garrafadas, produzidas pela maceração de plantas medicinais em cachaça ou álcool. Foram produzidas 11 garrafadas para eliminação de verminoses, 11 garrafadas para tratar infecções mais comuns nas mulheres, 318 garrafinhas de xarope multiervas, 312 pedaços de sabonetes para combater micoses e piolhos, xaropes para combater gripes e tosses.

“A ideia de oferecer essa oficina foi por conta da constatação de vários casos de desnutrição infantil. Com certeza, a fabricação desse suprimento alimentar fez muita diferença na vida de muitas famílias da Resex, além valorizar a medicina da floresta”, observa a assistente social, Eucilânia Cordeiro, técnica da SOS Amazônia que acompanhou a atividade.

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SOS Amazônia apresenta resultados do projeto ATES Resex Alto Juruá em reportagem especial


 Série 1 – Iniciativas para a redução do desmatamento e uso do fogo na Resex Alto Juruá

[A SOS Amazônia realiza na Reserva Extrativista Alto Juruá, primeira a ser constituída no Brasil, (Bioma Amazônia, localizada no município de Marechal Thaumaturgo – Acre, com uma área aproximada de 506.186 ha), projeto de Assessoria Técnica, Social e Ambiental, com apoio financeiro do Incra, desde março de 2014. Dividido em três etapas: Oficinas de Apresentação e Diagnóstico Familiar; Planejamento Participativo; e Oficinas de Capacitação e Orientação Técnica, essa iniciativa tem por objetivo melhorar a qualidade de vida das famílias que vivem na Reserva, com foco na conservação dos recursos naturais, envolvendo três eixos fundamentais: organização social, fomento do extrativismo e produção sustentável, e comercialização. Com duração de 30 meses, o projeto atende, aproximadamente, 1.200 famílias. As atividades técnicas acontecem em 10 comunidades Polos (formadas por 72 comunidades tradicionais e indígenas): Restauração, Maranguape, Remanso, Novo Horizonte, Iracema, Foz do Breu, Caiporinha, Belfort, Acuriá e Foz do Tejo, localizadas às margens dos rios Tejo, Juruá, Breu, Amônia e Arara, e nos igarapés Bajé, Caipora, São João e Acuriá]. 

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