A Prospecção de Petróleo e a Dissonância Cognitiva

Ícone de relógio out 24, 2013

Por Foster Brown, Antônio Willian Flores de Melo e Miguel Gustavo Xavier 

No mundo atual, o uso de combustíveis fósseis, ou seja, petróleo, gás natural e carvão, está crescendo, especialmente em países em desenvolvimento e novas tecnologias estão permitindo extrair mais combustíveis. Porém a preocupação sobre o impacto da queima destes combustíveis no clima está crescendo também.

O termo dissonância cognitiva vem da ciência de psicologia e pode ser definido como o conflito que uma pessoa sente por acreditar em duas ideias incompatíveis ao mesmo tempo. Um exemplo comum é o fumante que quer continuar fumando mesmo sabendo que os estudos científicos indicam que isso vai reduzir seu tempo de vida. Para resolver esse conflito, o fumante pode parar de fumar, ou, se quer continuar a fumar, desqualificar as informações conflitantes com frases como, “o meu avô fumava muito e morreu com 93 anos” ou “os estudos não prestam, afinal sou um homem e não um rato de laboratório”, etc.

Sendo seres humanos todos nós convivemos com dissonâncias cognitivas, queira ou não. Este artigo trata de uma dissonância cognitiva que as sociedades global e Amazônica enfrentam sobre o uso de combustíveis fósseis e a influência humana no clima.

Na atualidade, estamos dependentes da queima de combustíveis fosseis e consequentemente somos todos “fumantes”. Afinal os combustíveis fósseis são excelentes fontes de energia e construímos uma sociedade industrial graça a esta energia. O problema crescente é que essa queima libera o gás carbônico, que é de um lado um nutriente para plantas, mas por outro lado, um gás que absorve calor vindo da superfície terrestre. Essa absorção de calor gera o chamado aumento do efeito estufa que promove as mudanças climáticas globais.

Com o crescimento da economia global e o uso acelerado de combustíveis fósseis, estamos fazendo um experimento global com a nossa atmosfera, vegetação e oceanos, submetendo-os a concentrações crescentes de gás carbônico. Desde 1950, a concentração de gás carbônico aumentou 26%, de 312 ppm para 394 ppm. Os oceanos já estão acidificando, em alguns casos a vegetação está crescendo mais e a entrada e saída de energia termal na atmosfera está se modificando, retendo mais energia. Nos próximos vinte anos pode ser que vamos conhecer um mundo com 440 ppm de gás carbônico na atmosfera quando se espera que os impactos tenham se intensificado.

Aliás, já existem evidências de que as chuvas e as secas estão se intensificando e as estações estão mudando. Várias lideranças rurais e indígenas reclamam que a produção de roçados está diminuindo. Para quem depende desta produção agrícola, isto significa empobrecimento ou fome. Esses resultados não são provas de que o gás carbônico que a sociedade industrial está liberando é a única causa, mas são consistentes com o que sabemos do impacto de gases de efeito estufa.

Se alguém aceitar que a influência humana no clima é grande e vai crescer, se não mudarmos o uso crescente de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, promover a expansão da prospecção de petróleo, ele ou ela vai entrar numa dissonância cognitiva. No momento esta dissonância está reinando nos Estados Unidos onde a produção de gás natural via fracking e de petróleo via extração de depósitos de areia xistosa no Canadá está sendo promovida quando simultaneamente vários políticos reconhecem que mudanças climáticas são um problema sério. Mas dissonância acontece também na América do Sul com a prospecção de petróleo em Madre de Dios/Peru, Pando/Bolívia e no Acre depois da região ter enfrentado duas secas severas nos anos de 2005 e 2010 e uma série de inundações anuais.

Para resolver esta dissonância temos dois caminhos. Um seria procurar como desenvolver uma economia que produz menos emissão de carbono. O outro seria tentar desqualificar as evidências, como um fumante inveterado faria sobre os estudos dos perigos do fumo. Dada a gravidade da situação das mudanças climáticas prováveis no futuro próximo, gostaríamos muito que alguém pudesse mostrar que as evidências de impactos crescentes são todas erradas, mas até hoje não vimos argumentos convincentes.

Nessa situação vemos com preocupação o investimento na prospecção de petróleo no lugar de investimentos em alternativas de baixa emissão de carbono para gerar a energia que precisamos para o desenvolvimento na região. A energia que achamos barata hoje pode se tornar muito mais cara no futuro, dado o seu impacto no clima.

[box] Foster Brown, Pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (Memrn) da Universidade Federal do Acre (Ufac). Cientista do Experimento de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT Servamb e do Parque Zoobotânico (PZ) da Ufac. Membro do Consorcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA).

Antonio Willian Flores de Melo, Docente e pesquisador do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza e do Parque Zoobotânico da Ufac.

Miguel Gustavo Xavier, Docente e pesquisador do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza e do Parque Zoobotânico da Ufac. [/box]

[Artigo publicado no Jornal A Gazeta]

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