Após medo nuclear, desafios continuam

Ícone de relógio out 01, 2013

Há 40 anos, a iminência de uma guerra nuclear fez brotar um sentimento coletivo de urgência pela preservação da vida no planeta. Foi com esse sentimento que, em 1971, um pequeno grupo de hippies e jornalistas subiu a bordo de um precário barco pesqueiro e se dirigiu para a ilha de Amchitka, na costa do Alasca, com a intenção de impedir um teste nuclear dos Estados Unidos. De imediato, os ativistas não conseguiram realizar a façanha. Mas o ato atraiu o apoio da opinião pública e forçou os EUA a suspenderem os testes.

Essa história marcou a fundação do Greenpeace. Mas inspirou também a formação de outros grupos da sociedade civil, preocupados em como a ação predadora do ser humano sobre o planeta pode colocar em risco a nossa própria sobrevivência.

Passadas algumas décadas, os desafios ambientais continuam mais preocupantes do que nunca. Porém, não se observam atitudes ambiciosas dos chefes de Estado no sentido de evitar as piores consequências para as futuras gerações.

O relatório do IPCC divulgado ontem é prova disso, pois reacende os sinais de alerta sobre a gravidade do problema do aquecimento global. O documento reafirma que as mudanças climáticas são um fato inequívoco e que os impactos das emissões de CO2 se intensificaram de modo dramático desde a primeira edição, em 1990.

Os cientistas insistem na necessidade de evitar a alta da temperatura média global. Para isso, porém, é preciso um corte drástico das emissões de gases estufa até que elas sejam zeradas até 2070. Isso significa que precisamos repensar nossos meios de produção, substituindo os combustíveis fósseis por fontes renováveis, e alterar nosso padrão de consumo. Afinal estamos explorando os recursos do planeta muito além de sua capacidade de regeneração.

Infelizmente, essa mensagem dura parece não encontrar mais eco em um mundo que traduz conforto e bem-estar como capacidade de consumo. Além disso, a oposição entre países ricos e emergentes nos fóruns internacionais parece não superar a lógica da oposição dos primeiros ao desenvolvimento dos segundos. O contraste de renda e de condição de vida pode induzir setores dos países emergentes a relutar em apoiar medidas que possam significar a restrição a bens materiais. O mesmo pode ocorrer entre os ricos, que relutarão em abrir mão dos padrões de vida alcançados.

Encontrar o ponto de equilíbrio é o que precisa ser feito para superar a visão de que a solução dos problemas só virá com uma imensa restrição à vida das pessoas. O problema das mudanças climáticas só será resolvido se superarmos as barreiras de egoísmo que os países constroem para proteger seus interesses econômicos.

É isso que permitirá que a luta contra o aquecimento global assuma os mesmos contornos do movimento contra o uso de armas atômicas, desencadeado a partir dos anos 1960. É o que também poderá permitir a quebra da inércia com que o assunto é tratado nos fóruns internacionais, criando uma força latente que coloque na ordem do dia o debate sobre a radicalidade e urgência que se fazem necessárias.

Apropriando-se do que disse Martin Luther King, que há 50 anos falava da “urgência ferrenha do agora”, precisamos estar preparados, no Brasil e no mundo, para dizer que, diante de problemas como os das mudanças climáticas, queremos o amanhã para ontem.

[Sergio Leitão / Greenpeace]

Leia ‘IPCC alerta que o mundo precisa agir’

 

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