Ajustamos o termostato do planeta para nos gratinar lentamente

Ícone de relógio set 14, 2013

por Leonardo Sakamoto*

“Temos cinco minutos para a meia-noite”, afirmou Rajendra Pachauri, do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, que lançará um novo relatório sobre a situação do aquecimento global até o final do mês. Segundo ele, temos muito pouco tempo para evitar a tão falada catástrofe em nosso sistema climático.

Quem lê essa declaração (e viveu a Guerra Fria) é capaz de se lembrar do “Relógio do Juízo Final“, um medidor simbólico mantido pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, nos Estados Unidos, que mostra o quão perto estamos de destruir nossa civilização por tecnologias que criamos. Inicialmente, ele retratava o risco de armas nucleares, mas, recentemente, passou também a considerar mudanças climáticas, biotecnologia e nanotecnologia, entre outras, que podem, mesmo sem intenção, passar a régua na humanidade.

Na pior situação do relógio, chegamos a 2 minutos da meia-noite (em 1953, com sucessivos testes nucleares do EUA e da União Soviética) e, na melhor, a 17 minutos (com a redução do arsenal nuclear ao fim da Guerra Fria). Desde 2012, o reloginho está estacionado a 5 minutos do fim por conta do risco de uso de armas nucleares em conflitos pelo mundo, de desastres em usinas atômicas e, é claro, por conta das soluções insuficientes para o processo de mudança climática.

Nossa sociedade não evoluiu pensando em um plano B e agora que ajustamos o termostato do planeta para a posição “Gratinar os Consumistas Lentamente” ficamos nos debatendo com discursos mequetrefes de que a economia não pode pagar pelas necessárias mudanças no modelo de desenvolvimento pela qual passa a solução. E, ainda por cima, alguns perus e frangos acham que o forno não está ligado e clamam pelo direito de continuar poluindo. Não só está ligado como em contagem regressiva.

Tendo em vista todo esse negacionismo maluco, um renomado cientista declarou, pouco antes de uma das cúpulas do clima, que era melhor então deixar os fatos tomarem seu curso natural, o mundo aquecer, refugiados ambientais quadruplicarem, cidades nos países ricos serem invadidas pelo mar, a fome surgir no centro do mundo, guerras ambientais ocorrerem. Só assim pessoas e países tomariam atitudes mais fortes que as alternativas atuais, como o mercado de carbono. Situação que, no Brasil, é vulgarmente conhecida como “a hora em que a água bate na bunda”. O problema é que, seguindo a toada, quando chegarmos nesse ponto, talvez não haja mais traseiro para salvar.

Como já disse aqui, não é à toa que uma das mais estranhas e, ao mesmo tempo, brilhantes alianças políticas no parlamento brasileiro seja entre a bancada evangélica e a bancada ruralista. De um lado, os fieis ajudam a garantir a manutenção de um desenvolvimento a qualquer preço, passando por cima do meio ambiente, como se não houvesse amanhã. Do outro, os fazendeiros contribuem para que os direitos humanos sejam rasgados diante de uma visão distorcida de religião, garantindo que não faça muito sentido existir um amanhã.

O pacto é perfeito. Diante do desespero do caos ambiental (fomentado pelos ruralistas ao derrubarem o Código Florestal), mais fieis irão a igrejas. Pois só restará lamentar. Ou rezar. Até porque, do ponto de vista do meio ambiente ou da dignidade humana, antecipam todos o dia do juízo final.

Enquanto isso, a maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência, comprando da periferia do mundo o direito de continuar poluindo e o resto que se dane. Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. Deixar de comprar? Tá maluco!

Alguns consideram que a avaliação de Rajendra é pessimista. Eu não. Há indícios suficientes de que a vaca já foi para o brejo. Dá um nó na garganta saber que as próximas gerações irão falar de nós entre os dentes. Não porque fomos a única geração responsável pelas altas concentrações de CO2 na atmosfera. Mas porque sabíamos disso e não fizemos o necessário.

* Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Com informações e sugestão de título de Guilherme Zocchio e Stefano Wrobleski, da Repórter Brasil.

 

 

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